A CRISE E O CÂMBIO
A sequência da crise mundial, através dos problemas advindos da Grécia, Portugal e Espanha, traz consigo a confirmação de um movimento importante e que mexe com toda a economia mundial. Como o capital financeiro internacional está sem controle num mundo globalizado, a ação especulativa deste capital provoca alterações cambiais rápidas e importantes nos diferentes países do mundo. Isso ocorre com maior agudez porque o capital especulativo encontra a maioria dos países com um sistema de câmbio flutuante. Ou seja, o câmbio, que nada mais é do que o valor da moeda nacional expresso em moeda estrangeira num determinado momento, se altera ao sabor da entrada e saída de moeda estrangeira no país. Como o dólar continua sendo a referência mundial, a comparação se faz com esta moeda preferencialmente. Assim, crises econômico-financeiras como a que vivemos desde agosto de 2007 provocam constantes movimentos de entrada e saída de dólares junto aos diferentes países do mundo. É o caso do Brasil, que adotou, por razões conhecidas e necessárias, o sistema de câmbio flutuante em janeiro de 1999 e o mantém. Desta forma, uma forte entrada de dólares no país, sejam especulativos ou produtivos, derruba o valor da moeda estrangeira e valoriza a moeda nacional. Uma forte saída de moeda estrangeira provoca o efeito inverso. Desde 1999 temos, em média, registrado muito mais entrada de dólares do que saída, fato que deixou nossa moeda sobrevalorizada em relação ao dólar, quando medida pela paridade de compra.
A CRISE E O CÂMBIO (II)
Todavia, em momentos de crise mundial, o capital especulativo sai do país para cobrir posições nos focos destas crises. Isso provoca, momentaneamente, uma desvalorização do Real. Foi o que ocorreu entre o final de 2008 e início de 2009, quando saímos de um câmbio de R$ 1,56 por dólar no final de julho de 2008, para R$ 2,44 no início de março de 2009. Posteriormente, a calmaria econômica, mesmo dentro da crise maior, nos trouxe mais dólares especulativos e nossa moeda caiu novamente para patamares ao redor de R$ 1,73. Agora, com a cristalização dos efeitos da crise na Europa, através do estouro da economia grega, nossa moeda, em três dias, chegou a se desvalorizar quase 10% na primeira semana de maio, passando destes R$ 1,73 para R$ 1,89. Bastou sair o pacote de ajuda de cerca de um trilhão de dólares aos países europeus, e nossa moeda voltou a se valorizar, recuando para níveis de R$ 1,77. Tais movimentos atingem diretamente as exportações e importações, pois Real fraco favorece ao exportador e desfavorece ao importador, e vice-versa. Não é por nada que neste ano de 2010 o saldo de nossa balança comercial está em franco recuo! Nota-se, portanto, que o câmbio é um importante instrumento comercial. Diante dos acontecimentos, volta à tona o debate sobre a validade de se continuar a deixar flutuar o câmbio, com intervenções esporádicas do Banco Central na compra e na venda da moeda estrangeira, ou voltar a se adotar um sistema de intervenção estatal sobre o mesmo, o qual é de alto risco como nossa história já demonstrou.
Prof. Dr. Argemiro Luís Brum (CEEMA/DECon/UNIJUI)
|